Mulheres devem ficar caladas na Congregação? O que Sha’ul quis dizer?

Recebemos de um de nossos talmidim a seguinte pergunta:

“Tzadok, shalom: shaul disse aos coríntios que as mulheres ficassem caladas nas congregações e se quisessem saber alguma coisa perguntasse aos seus maridos em casa; a minha pergunta é: as mulheres não assistiam juntamente com os homens? Visto que para saber alguma coisa tinha que perguntar aos seus maridos em casa? Um abraço tzadok shalom”.

Inicialmente, vejamos todo o contexto do texto de Sha’ul.

1 Coríntios 14 (Peshitta):

26 Portanto, meus irmãos, digo que, quando estiverem reunidos, deixem falar quem tiver salmo, e quem tem ensinamento, e quem tem revelação, e quem tem língua, e quem tem interpretação, pois todas estas [coisas] são para a edificação.

27 E se um homem falar em língua, devem falar dois ou, no máximo, três. Eles devem falar um por um, e um deve interpretar.

28 E se não houver quem interprete, aquele que fala em língua deve ficar em silêncio na congregação, e fale consigo mesmo e com Elohim.

29 E os profetas devem falar, dois ou três, e os outros devem discernir.

30 E se [algo] é revelado para outro, enquanto se assenta, o primeiro deve ficar em silêncio.

31 Pois todos vocês podem profetizar, um por um, para que cada homem possa aprender, e todo homem seja confortado.

32 Porque o espírito dos profetas está sujeito aos profetas,

33 pois Elohim não é de confusão, mas de shalom, como em todas as congregações dos k’doshim.

34 Suas mulheres devem ficar em silêncio na congregação, porque não estão autorizados a falar, mas estão sujeitas, como também diz a Torá. 

35 E se querem aprender algo, devem perguntar aos seus maridos em casa, pois é vergonhoso que as mulheres falem na congregação.

36 Será que a palavra de Elohim saiu de vocês? Ou será que somente chega a vocês?

37 Ora, se um homem de vocês pensa que é profeta ou que é [guiado] pela Ruach, deve saber que estas [coisas] que eu lhes escrevo são mitsvot de nosso Senhor. 

38 Mas se um homem não sabe, que não saiba.

39 Portanto, meus irmãos, procurem com zelo o profetizar, e não proíbam o falar em línguas. 

40 E que tudo seja [feito] com decência e ordem.

 

A fim de contextualizar as palavras de Sha’ul em 1 Coríntios 14:34-35, é importante analisarmos, primeiramente, a posição da mulher na cultura judaica, na B’rit Chadashá e na Torá.

 

MULHERES NA CULTURA JUDAICA:

The Jewish Annotated New Testament, Second Edition:

“O movimento fariseu era, de acordo com Josefo (Ant. 17.41) e a literatura rabínica (t. Nidd. 5.2-3), fortemente apoiado por mulheres, ocasionalmente contra a vontade de seus maridos. A cunhada do rei Herodes (o Grande) apoiou financeiramente os fariseus, contra o desejo explícito de Herodes (Ant. 17.42-43). Podemos imaginar que a discípula de Jesus, Joana, esposa de Cuza, servo de Herodes (Antipas) (Lc 8.3), seguiu Jesus de maneira semelhante, para consternação de seu marido. A rainha judia Salomé Alexandra (76-67 aC) apoiou os fariseus e estabeleceu leis de acordo com seus ensinamentos (Josefo, J.W. 1.107-19; Ant. 13.398-432). Até mesmo os escritos da seita do Mar Morto continham leis para mulheres e homens, incluindo uma lei que as mulheres da seita podiam testemunhar em tribunal contra seus próprios maridos (1QSa 1.11-12); a seita também instituiu títulos especiais para mulheres líderes, como “mães” (4Q270) e “anciãs” (4Q502). Josefo até mesmo observa que uma das facções que participaram da revolta contra Roma em 70 EC, liderada por Shimeon bar Giora, tinha um séquito de mulheres (Josefo, J.W. 4.505)”.

 

MULHERES NA B’RIT CHADASHÁ

Os evangelhos e os demais livros da B’rit Chadashá narram uma forte presença feminina no corpo do Mashiach. Muitas mulheres acompanhavam Yeshua, financiavam-no e inclusive estavam na crucificação. Em Atos, também lemos sobre Priscila, Lídia e tantas outras mulheres que se achegaram ao corpo dos talmidim. Em suma, as mulheres tinham participação ativa nas comunidades dos talmidim. 

Sobre as mulheres na B’rit Chadashá, confira: Mt 14:21; 15:38; 27:55; 28:5; Mc 15:40; Lc 8:2; 23:27, 49, 55; 24:11, 22, 24; At 1:14; 5:14; 8:3, 12; 9:2; 16:13; 17:4, 12; 21:5; 22:4; 1 Co 14:34; 1 Tm 2:9–10; 3:11; 5:2; Tt 2:3–4; Hb 11:35.

 

A POSIÇÃO DO HOMEM E DA MULHER NA TORÁ E NA B’RIT CHADASHÁ

Segundo a Torá, o homem é o cabeça da mulher, o líder da família: “e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” (Gn 3:16).

Acerca de Gn 3:16, Ibn Ezra cita o entendimento dos rabinos no sentido de que “o teu desejo” deve ser lido como “a tua obediência”, e afirma: “Você deve obedecer quando ele lhe ordenar, pois você está debaixo de sua autoridade e deve fazer a vontade dele”.

Sha’ul seguiu a Torá e escreveu em 1 Co 11:3: “a cabeça da mulher é o homem”. Também afirmou em 1 Co 14:34: “Suas mulheres devem ficar em silêncio na congregação, porque não estão autorizados a falar, mas estão sujeitas, como também diz a Torá”. 

1 Pe 3 (Peshitta):

5 Porque assim também, anteriormente, mulheres k’doshot que pensavam em Elohim se adornavam e estavam sujeitas a seus maridos,

6 Como Sará estava sujeita a Avraham e chamou-lhe “Meu Senhor”, cujas filhas são vocês por meio de boas obras, quando não estão abaladas pelo medo.

Efésios 5 (Peshitta):

22 Mulheres, sujeitem-se aos seus maridos, como ao nosso Senhor,

23 porque o marido é a cabeça da mulher, como também o Mashiach é a cabeça da congregação; e ele é o doador da vida do corpo. 

24 Mas, assim como a congregação está sujeita ao Mashiach, também as mulheres [devem sujeitar-se] a seus maridos em tudo. 

25 Homens, amem as suas mulheres, como também o Mashiach amou a sua congregação, e entregou sua vida por ela.

1 Pe 3 (Peshitta):

7 E vocês, homens, da mesma forma convivam com suas esposas com conhecimento. E mantenham-nas com honra, como vasos frágeis, porque também com vocês elas herdarão o presente da vida eterna, para que vocês não tropecem em suas orações.

 

1 CO 14:34: O QUE SIGNIFICA QUE “SUAS MULHERES DEVEM FICAR EM SILÊNCIO?” 

O texto de 1 Co 11:5 afirma que havia mulheres orando e profetizando. Então, as mulheres participavam da Congregação. Elas falavam, oravam e profetizavam. Portanto, 1 Co 14:34 não significa uma proibição absoluta de falar.

NIV Cultural Backgrounds Study Bible sobre 1 Co 14:34:

“Os gregos que valorizavam as tradições mais antigas se ressentiam de uma mulher falar em público onde outros homens que não seu marido estavam presentes”.

“Abordando a situação em Corinto, Paulo parece referir-se a um tipo particular de discurso (veja nota no v. 35) em vez de todo discurso (por exemplo, orar, cantar corporativamente ou profetizar; 11: 5).”

“Ouvintes informados costumam fazer perguntas durante as palestras, incluindo palestras sobre as Escrituras. No entanto, os antigos consideravam perguntas incultas inapropriadas; os novatos deveriam aprender silenciosamente e não atrasar os outros com perguntas inadequadas. Seja por esse motivo ou aquele observado na nota sobre o v. 34, as perguntas públicas das mulheres podem ser ofensivas. Proporcionalmente, as mulheres tinham muito menos educação do que os homens das mesmas classes sociais. As mulheres judias ouviam as Escrituras explicadas nas sinagogas, mas virtualmente nunca foram treinadas como discípulas (veja nota em Lc 10:39), nem mesmo ensinadas a recitar as Escrituras junto com os meninos (veja notas em 1 Tim 2:11, 12). ‘Pergunte a seus próprios maridos em casa’. As mulheres geralmente se casavam aos 18 anos e às vezes muito mais jovens. As mulheres gregas eram em média 12 anos mais novas que seus maridos. Como os maridos gregos muitas vezes viam as esposas como crianças, poucos se interessavam pelo aprendizado das esposas; exceções foram notáveis. Assim, na cultura de Paulo, o incentivo para as esposas aprenderem, mesmo em particular, seria considerado algo muito avançado. Seu aprendizado também contrariava o motivo dessas mulheres interromperem as aulas com perguntas inúteis.”

The ESV Study Bible sobre 1 Co 14:34:

“Visto que Paulo parece permitir que as esposas orem e profetizem (11:5, 13), desde que não desonrem seus maridos pela maneira como se vestem (11:5), é difícil ver isso como uma proibição absoluta (cf. Atos 2:17; 21: 8–9). É provável que Paulo esteja proibindo as mulheres de falar e julgar as profecias (esta é a atividade no contexto imediato; cf. 1 Coríntios 14:29), uma vez que tal atividade subverteria a chefia masculina”.

 

CONCLUSÃO

Destarte, em relação às afirmativas de Sha’ul no sentido de que “suas mulheres devem ficar em silêncio na congregação” e “se querem aprender algo, devem perguntar aos seus maridos em casa” (1 Co 14:34-35), é possível interpretar os versos da seguinte forma:

a) Já que Corinto fica na Grécia, sabe-se que na época era vergonhoso uma mulher perguntar algo para outro homem quando seu marido estivesse presente. Assim sendo, Sha’ul quis evitar que as mulheres tivessem um comportamento desonroso em relação aos seus respectivos maridos;

b) Por questões culturais e sociais, as mulheres tinham um grau de instrução inferior ao dos homens. Não recebiam um treinamento nas Escrituras igual ao dos homens, bem como se casavam muito cedo e se dedicavam à família, o que fazia com que seus maridos fossem muito mais versados no Tanach. Diante de tal fato, a fim de que as mulheres não fizessem perguntas impertinentes e incultas, tumultuando os estudos que eram ministrados, Sha’ul aconselhou que as mulheres perguntassem a seus maridos em casa; 

c) Também é possível cogitar que Sha’ul não estava proibindo genericamente que as mulheres falassem, tanto é que elas oravam e profetizavam (1 Co 11:5, 13). O contexto do texto diz respeito ao julgamento de profecias (versos 29 a 33). Em decorrência, Sha’ul proibiu apenas que as mulheres falassem e julgassem as profecias, já que isto é uma função da liderança, que em uma comunidade messiânica necessariamente será composta por homens. Ou seja, tendo em vista que os líderes são homens e estes estão investidos na autoridade de julgar as profecias, as mulheres não poderiam se manifestar sobre tal questão, a fim de não usurpar a função da liderança masculina.

Diante de todos estes dados, conclui-se que Sha’ul não proibiu genericamente que as mulheres falassem na Congregação. Estas falavam, oravam e profetizavam (1 Co 11:5, 13), participando ativamente da vida congregacional. A proibição de Sha’ul somente recaiu sobre as situações específicas acima mencionadas. 

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